UM POUCO DE HISTÓRIA

por Luiz Carlos Ponzi

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"Com "Um Pouco de História" vou  mostrar a vocês, caros leitores,  um pouco da história do Rio Grande do Sul, com ênfase na região Nordeste do Estado (Serra Gaúcha), que foi colonizada por imigrantes vindos da Itália a partir do ano de 1875, e que aqui se estabeleceram num local que era chamado de "Campos dos Bugres" mas que, oficialmente, era os fundos da Colônia Nova Palmira, depois Colônia Santa Tereza de Caxias, mais adiante Caxias e, por fim, em 1945, Caxias do Sul.

Obrigado pela visita e lembre-se que devido a esta página ser um Blog, a leitura é sempre feita de baixo para cima! O texto está seguindo uma ordem! Comentários são a alegria de quem escreve! Um forte abraço!"

Luiz Carlos Ponzi


OS NORDESTINOS ESTÃO MORRENDO

Por falar na entrada no Rio Grande desse bom número de pessoas famintas - não devemos esquecer - nesse mesmo ano de 1875, outro grande contingente de famintos se reunia, não no Norte da Itália, mas sim aqui no Brasil, onde o Nordeste do país fornecia uma massa de refugiados da seca, dos quais um número aproximado de 50.000 morreram somente no Ceará e vizinhanças, mas o governo imperial de Pedro II não se preocupou em mandar para o Sul estes desesperados nordestinos. É bem provável que o Imperador entendesse que não seriam suficientemente brancos os famintos nordestinos e, bem parece, o grande objetivo de Pedro II era “branquear” a raça brasileira.

Como já haviam decidido as elites italianas, também aqui no Brasil as imperiais elites se preocupavam em não deixar todos os nordestinos morrer no bom e saudável Nordeste que – para espanto de muitos - somente tinha problemas com a fome em épocas de grandes estiagens. Os donos do poder mandaram boa parte dos famintos nordestinos morrer no inóspito e insalubre vale amazônico.

Assim, enquanto a emigração realizada pelo governo italiano era, de certo modo, organizada, aqui no Brasil, a migração interna dos flagelados nordestinos para a Amazônia foi espetacularmente absurda, quando eles eram enviados principalmente para o Acre - que ainda era um território pertencente à Bolívia, mas dominado por seringueiros brasileiros - sem qualquer tipo de planejamento, e entregues ao flagelo do beribéri e da malária. Eles não morriam mais de sede e de fome no Nordeste; agora eles morriam de doenças tropicais na Amazônia que se transformou num gigantesco cemitério de nordestinos, não só pela incúria com que as autoridades trataram aquela pobre gente, mas também porque o migrado não fez qualquer esforço para se adaptar àquela terra úmida e quente, viveiro ideal para a proliferação dos mortíferos germes. Os nordestinos, por falta de uma melhor cultura, e de melhores informações que lhes deveriam prestar as autoridades, mantiveram os mesmos hábitos, a mesma alimentação e o mesmo vestuário. A terra e o homem não se aproximaram nem se entenderam reciprocamente, ao contrário do que ocorreu no Sul, onde o italiano entendeu e se adaptou à nova, diferente e bravia terra, tanto que já no primeiro inverno, eles conheceram o pinhão, que foi incorporado à alimentação de subsistência.



Escrito por Luiz Carlos Ponzi às 05:21 PM
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UM PEDAÇO DA ITÁLIA NA SERRA GAÚCHA

Os italianos que haviam optado pelo Brasil começaram a chegar e foram distribuídos primeiramente na região sudeste, onde se incorporaram nas fazendas de café e de cana de açúcar de São Paulo e Espírito Santo, e esta mão de obra imigrada substituiu a servil de origem africana, pois que, no terceiro quartel do século dezenove, a escravidão já não mais interessava aos donos das terras, o sistema não tinha mais sustentação, e o processo de abolição da escravatura era irreversível. Os loiros imigrantes, com muitas vantagens, vinham substituir os escravos negros que durante quase 400 anos haviam sustentado a economia brasileira.

O governo provincial encarregou Luiz Antônio Feijó Júnior - que é nome de uma rua de Caxias do Sul - para vistoriar a região que receberia os italianos, para fazer um levantamento da flora e da fauna e das potencialidades das terras, principalmente para o cultivo de trigo e milho. Pouco depois, as terras foram demarcadas, e tudo ficou pronto para a chegada dos primeiro imigrantes.

Este Rio Grande, encontrado pelos italianos, era bem diferente daquele que em 1824 recepcionou os alemães. Já não existiam somente os cinco primeiro municípios - Porto Alegre, Rio Grande, Santo Antônio das Patrulha, Rio Pardo e São João da Cachoeira - agora eram 28 municípios.

Na Província, ferrovia já era uma realidade, existia uma rede telegráfica, um sistema bancário organizado, e a navegação fluvial a vapor encontrava-se bastante desenvolvida. Todas estas modernidades facilitavam em muito o desenvolvimento da Província, cuja economia, entretanto, ainda estava centrada na pecuária, notadamente na indústria do charque e do couro.

Os imigrantes italianos que aportaram a serra gaúcha vieram principalmente de uma região chamada de Vêneto, onde a crise era maior. Eles eram oriundos das províncias de Vicenza, Treviso e Verona. Vieram também de Cremona e Mântua e parte da Brescia, regiões essas próximas do Vêneto, e do Bergamo, província no sopé dos Alpes. A região do Trento, na área de Trentino Alto Ágide, que somente após a Primeira Guerra seria incorporada à Itália e de Friuli Venécia Julia também forneceram boa massa de emigrantes para o Brasil. Muitos vieram do Südtirol, os mais loiros e de olhos azuis, mais germânicos do que itálicos, e quando aqui chegavam, eram identificados não como italianos, mas sim como tiroleses.

Num cálculo aproximado pode-se dizer que do total de italianos que chegaram à Província, 54% eram de vênetos, 33% de lombardos, 7% de trentinos, 4,5% de friulinos 1,5% de outras regiões. Os números nunca precisos da imigração estimam que entre 1875 a 1914, entraram no Rio Grande do Sul um número de italianos que pode variar de 80 a 100 mil.



Escrito por Luiz Carlos Ponzi às 04:53 PM
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A SERRA GAÚCHA

Mas nem todos os imigrantes italianos deveriam ficar no sudeste brasileiro para substituir os escravos. Boa parte deles haveriam de seguir viagem em direção ao quase desconhecido sul, para povoarem as terras devolutas na serra da Província de São Pedro do Rio Grande, pois as terras junto aos bons rios e no litoral já haviam sido ocupadas pelos imigrantes lusos que haviam chegado bem antes, e pelos alemães que chegaram ao sul a partir de 1824 e se instalaram por primeiro na fazenda do linho cânhamo, que havia sido abandonada pelos lusos, e lá, no dia 25 de julho de 1824, às margens do Rio dos Sinos fundaram São Leopoldo.

Havia necessidade de se preparar a colonização daquela vasta área de terras serranas que se estendia dos Campos de Cima da Serra até o sopé dos montes dos campos de São João de Montenegro, local cortado pelos rios Taquari e Antas. E foi assim que o Governo Imperial, por ato de 9 de fevereiro de 1870, autorizou o governo provincial a demarcar aquelas terras devolutas.

O Governo Imperial contratou com as empresas Holzweissig & Cia e Caetano Pinto & Irmão a colocação de dois mil colonos por ano, pena de pagarem as contratadas 10.000$ réis por colono que faltasse, devendo aqueles que imigrassem comprovar boa conduta política e moral, miserabilidade e também, como regra geral, deveriam ser casados, com filhos, jovens e saudáveis. O governo queria assim garantir que estes que para aqui viessem aqui permanecessem. A idéia era evitar a chegada dos aventureiros e outros mais que pensassem mais em explorar do que colonizar as terras da serra gaúcha. Mas estas condições nem sempre foram observadas.



Escrito por Luiz Carlos Ponzi às 07:39 PM
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Luiz Carlos Ponzi é historiador, nascido em 20/09/1942, natural de Guaporé - RS e radicado em Caxias do Sul - RS desde 1948.

Bacharelou-se em Direito pela Universidade de Caxias do Sul em 1975. Vinte e cinco anos depois, licenciou-se em História pela mesma Universidade.

Ponzi dedica-se à pesquisa histórica, com ênfase na história da imigração italiana no estado do RS.

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